terça-feira, 18 de julho de 2017

Guia básico: colorindo uma página de história em quadrinhos

Quem acompanha minhas andanças nesse mundão digital de meu Deus já notou que estou treinando pintura digital faz um tempinho, especificamente pintura digital de histórias em quadrinhos. Tudo começou quando estava revendo algumas das minhas artes e, posteriormente, resolvi pintar uma ilustração e redescobri esse prazer agradável das cores.

Liberator: Rage Ignition
Minha história pessoal envolve um curso técnico de design gráfico e a destruição dos meus sonhos provocados pela má instrução educacional. Porém, como esse processo é muito chato e meloso, vou dizer apenas que fiz esse curso, aprendi a mexer no photoshop, estou assistindo aos vídeos do K. Michael Russel e finalmente li O Uso das Cores, livro teórico da Cris Peter, uma das principais, se não a melhor, colorista do país.

Para essa postagem eu separei uma página de Liberator, história em quadrinhos escrita pelo Fabian Rangel Jr, ilustrada pelo Jonathan Brandon Sawyer e com cores do Doug Garbark. O quadrinho, publicado pela Black Mask Comics, conta a história de ativistas radicais em defesa dos animais que acabam se tornando vigilantes uniformizados. A atividade desses indivíduos, como o título indica, é de libertar animais de cativeiro e impedir suas objetificações como bens de consumo ou estudo.

Caso tenha ficado interessado, você pode adquirir o primeiro volume dessa história na Amazon: Liberator Volume 1: Rage Ignition.

Antes de mostrar o meu processo de pintura, tenho que alertar que diferentemente do Guia Básico: formatação de roteiro para histórias em quadrinhos, esse guia de cores ainda é bem amador, afinal de contas, ainda considero a minha técnica amadora. Portanto, se você está começando e quer entender o básico do básico, nós poderemos aprender juntos nessa postagem.

No entanto, se você quer desfrutar do conhecimento de um profissional de alto gabarito e com maior competência para lhe ensinar alguma coisa, recomendo os vídeos do K. Michael Russel e o livro O Uso das Cores, da também já mencionada Cris Peter. E, é claro, ainda existem os cursos da Quanta e de outras academias de artes ao qual você pode fazer para aprender sobre cores e afins.

Vamos ao que interessa: em primeira instância peguei essa imagem, a página número três de Liberator, em um grupo do Deviantart chamado Lineart4Colorist. Eu já havia feito algumas páginas e pin-ups anteriormente, mas nesse momento estava interessado em algo mais complexo, então essa arte em específico chamou a minha atenção.

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O primeiro passo para colorir um quadrinho é ter uma imagem em alta resolução, com no mínimo 300 dpi (qualidade de resolução) e com linhas livres de degradê; preto no branco, sem tons de cinza. Por ser uma imagem já modificada pelo sistema do Deviantart, a imagem que escolhi tem justamente esses pontilhados cinzas:

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Se você não tem capacidade de fazer os seus próprios desenhos isso será um problema constante, pois você vai sempre depender daquilo que encontra na internet. E lembre-se: sempre que pegar uma imagem dessa peça autorização para o artista. Nesse caso em específico eu não precisei solicitar, pois o desenho se encontrava em um grupo que existe justamente para isso. Mas em outras situações cheguei a entrar em contanto com os artistas. Inclusive, um deles, o Paolo Rivera, chegou a me enviar sua ilustração em alta definição (em bitmap) para que eu pudesse praticar. Perceba a diferença do acabamento de uma imagem de qualidade, usada oficialmente nos impressos, para essas encontradas na internet:

PS: a imagem pode ter perdido um pouco da qualidade no upload.
O problema desses pontinhos, tons de cinzas e afins, é que eles modificam as suas cores. Isso acontece porque uma das primeiras coisas que você fará para pintar um quadrinho é passar sua imagem finalizada em nanquim (inks/lineart) para Multiplay. No modo multiplay o preto será obsoleto no traçado e o branco não afetará suas cores. Porém, se houver tons de cinza, suas cores, que ficaram nos layers inferiores ao lineart, serão afetadas e mudaram suas tonalidades.

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Para resolver parcialmente esse impasse é recomendado passar sua imagem para tons de cinza (Image>Mode>Grayscale) e depois mexer nos levels (Ctrl+L) do seu lineart. Aumente o pouco o preto, 25 pontos, e diminua um pouco o branco, desse jeito os tons monocromáticos da arte ficaram mais equilibrados afetando menos sua coloração.

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Observação: usei leveis diferentes para deixar os tons de preto mais marcantes do que o mostrado na imagem. Isso não é prático, pois muda muito o traço do desenho; fiz isso apenas para exemplificar o resultado. Em imagens muito pixeladas o resultado final dos leveis não faz muita diferença.

Feito isso, passe sua imagem para CMYK ou RGB. Se sua arte for ser usada apenas na internet, deixe em RGB, mas se o objetivo é fazer algo para imprimir, procure trabalhar com CMYK. Em termos simplórios: CMYK (Cíano, Magenta, Amarelo e Preto) corresponde a tinta física, igual à dos cartuchos da sua impressora; o RGB (Vermelho, Verde e Azul) é a luz, arco-íris no céu ou as imagens no seu monitor. O Uso das Cores da Cris Peter fala sobre isso detalhadamente, mas você também pode pesquisar sobre a Teoria das Cores para melhor compreensão.

Todo esse processo inicial é de preparação para iniciar a coloração da sua imagem. Por hora ainda falta uma etapa: o FLAT. O flat nada mais é do que as cores base da sua arte, mas dentro de um padrão técnico. Aqui o objetivo não é pintar a imagem, mas separar as áreas de cores em camadas para a vindoura pintura. Nessa fase será utilizado os laços de seleção (L), Lasso Tool e Polygonal Lasso Tool; o primeiro serve para fazer linhas livres em movimento e o segundo para linhas retas. Outra ferramenta utilizada nesse processo é o balde de tinta (G – Paint Bucket Tool).

Seleciona a feramente de laço e desative o anti-alias e mantenha o Feather em zero. Faça o mesmo com o balde de tinta: configue a opacidade em 100%, mantenha a tolerância em zero e desative o anti-alias, contíguos e all-Layers. Isso vai evitar que ocorra o degrade na pintura, mantendo as cores chapadas, sem variações de tons:

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Agora que as ferramentas estão configuradas, você vai criar uma nova camada na área inferior ao seu lineart, que deve estar em modo multiplay. Coloque um cadeado na layer de linhas para evitar que você a pinte por acidente.

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O seu objetivo é pintar com uma cor diferente todas as áreas que serão posteriormente coloridas no seu desenho. Se você pretende pintar o Homem-Aranha, selecione toda a área vermelha e pinte de uma cor; depois faça o mesmo com o azul e assim sucessivamente. No nosso caso, uma página de quadrinhos, a primeira coisa a ser feita é pintar a nossa nova camada com uma cor aleatória, de preferência um tom claro. Depois disso selecione os quadros e pinte de uma cor diferente por ambiente. O objetivo do processo é ser decrescente, das áreas maiores para as menores.

(Selecione o corpo, depois as áreas individuais).
Todas as áreas devem ser pintadas com cores diferentes, exceto quando um objeto ou ambiente se repete. Exemplo: sua arte tem três quadros e o personagem de cabelo verde aparece nos dois primeiros. As cores usadas na personagem devem ser repetidas nesses dois quadros para formar um padrão. Para fazer a página eu usei tons variados de magenta, cíano e amarelo, mas é melhor usar sempre tonalidades diferentes para você perceber se faltou selecionar um ou outro ponto. Esse não é um processo de pintura, por isso você não deve ficar preocupado em escolher as cores certas para o seu desenho.

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Depois de selecionar tudo que será colorido, tudo mesmo, o seu arquivo estará pronto para ser trabalhado. Sim, até agora estamos apenas preparando o arquivo para colorir. Esse processo, os Flats, são técnicos, não artísticos. Muitos coloristas contratam assistentes para fazer esse trabalho por eles. Isso é uma experiência ao qual eu gostaria de passar, mas isso não vem ao caso.

Escolhendo as cores base


Para escolher as cores base para pintar uma página de quadrinhos será necessário saber ler o desenho. O processo criativo de uma HQ consiste em contar uma história, desse modo o roteiro vai impor um ritmo, o desenhista vai transpassar esse ritmo na narrativa e o colorista vai aperfeiçoar essas características. Como já ouvi mais de uma vez: as cores são a trilha sonora dos quadrinhos. Uma pintura pode melhorar ou piorar uma narrativa, portanto, é importante prestar atenção no enredo.

Antes de escolher as cores lembre-se de copiar sua camada de flats, colocar um cadeado no flat e renomear sua nova camada para “cores”. Sua pintura será feita em uma layer única para deixar seu arquivo do photoshop mais leve. Sempre que precisar selecionar uma área em específico use a varinha mágica no flat (W – Quick Selection Tool).

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Se você está trabalhando com um personagem já existente, super-heróis e afins, sua escolha de cores será mais simplória, pois será preciso apenas seguir o padrão do design original do personagem. No entanto, não use o conta-gotas (I – Eyedopper Tool) para conseguir suas cores. Procure fabricar suas cores, misture até chegar na tonalidade correspondente aos personagens.

Nessa página de Liberator nós vemos uma menina influenciada pelo punk-rock. Pela sinopse nós sabemos que ela se tornará uma ativista radical em defesa dos animais, e pela página, com ela olhando admirada para a vocalista da banda somado ao fato do seu quarto estar cheio de pôsteres de rock, nós percebemos que a música influencia sua rebeldia. Ou seja: os pontos de destaque da página são a vocalista no primeiro painel; a vocalista no segundo painel; a protagonista no terceiro painel; e a protagonista no quarto painel.

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Agora, para escolher as cores nós podemos fazer uso da Teoria das Cores ou procurar por referências. Vá no google imagens e digite “casa de show”. Pronto, você tem uma porrada de referências de cores predominantes em uma casa de show. Esse tipo de ambiente mistura cores vibrantes com sombras intensas, porém resolvi fazer um pouco diferente do usual. Por ser uma banda de rock que influência a rebeldia da jovem, resolvi deixar a plateia bem iluminada para mostrar o ambiente caótico. Uma boa baderna punk.

Entretanto, a iluminação do público é mais escura e dessaturada em relação aos membros da banda, desse modo os olhos do leitor serão primariamente guiados para a banda. Nesse mesmo aspecto a vocalista, mesmo com uma camiseta preta, tem as cores mais claras e saturadas (vibrantes), fazendo com que ela seja o destaque primário da cena. O Doug Garbark, o colorista oficial da série, foi mais radical nesse sentido e fez uma casa de show bem escura, evidenciando ainda mais a banda em relação ao público. Suas escolhas são mais funcionais do que as minhas, obviamente.

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Eu comecei pintando o quadrinho pelo último painel. Eu não sabia quais seriam as cores emitidas pelas lâmpadas do palco, então eu não tinha consciência de como as cores da protagonista, cabelo e pele, seriam afetadas no terceiro painel. Assim resolvi pintar ela no quarto, fazendo dessas tonalidades as cores base da personagem em um ambiente com iluminação comum.

O quarto painel foi pintado com tons claros de fundo, parede e teto, sem muitos detalhes e dessaturados. A garota e o pôster do Bad Religion são os meus destaques de página, por isso as tonalidades quentes e saturadas. Essa composição forma um círculo entre personagem e pôster, mostrando que a música é importante na sua vida. No roteiro ela diz “...punk rock saved my life”, o que caracteriza ainda mais esse detalhe da história. Nessa situação o meu trabalho era passar essa mesma sensação através das cores, por isso o painel tem esse círculo de tons quentes derivados do magenta, com a menina e o pôster em destaque.

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Depois de escolher as cores, priorizando em tons mais claros e vibrantes para os pontos de destaque das cenas, iniciei o processo de sombreamento. As minhas sombras são baseadas na dessaturação e tonalidade mais fortes da minha cor base. Se tenho um laranja avermelhado de mistura com magenta e amarelo, eu aumento um pouco a porcentagem dessas duas cores e adiciono um pouco de ciano para dar o efeito de sombra. Eu faço justamente o oposto para conseguir o tom de luz, mas essa não é a única maneira possível de se conseguir isso.


Outro método interessante é mexer na saturação da cor já colocada no desenho. Selecione o ponto desejado da sua cor e aperte Ctrl+U para abrir a janela de Hue/Saturation. Altere a iluminação (lightness), para mais claro ou escuro, segundo os seus desejos. Para fazer o desenho da sombra é importante ter um pouco de noção de perspectiva e anatomia. São as sombras que dão volume de massa para o desenho. Uma dica é seguir o nanquim, que é justamente a primeira fonte de sombra da arte.

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Procure identificar ou estabelecer sua fonte de luz para poder seguir sombreando. Os efeitos de luzes seguiram o mesmo princípio. Eu trabalho sempre com três cores: base, base escura e base clara. É sempre possível utilizar mais cores, mas como sou iniciante, o ideal é trabalhar aos poucos.

Levando em consideração que as sombras e as luzes seguem objeto e ambiente, eu resolvi trabalhar com dois tons nos três primeiros painéis, todos pertencentes ao ambiente da casa de show. Por ser uma área de sombras e luz intensa, ou é escuro ou é claro, a duas tonalidades ajudam a passar o clima da situação de forma mais eficiente. Na arte oficial isso é perceptível com mais clareza, pois o volume foi definido pelas luzes, justamente o oposto do meu trabalho.

Eu particularmente, como mencionei, trabalho com detalhes chapados nas áreas de destaque e um degrade simples no fundo. Isso me ajuda a definir melhor a composição das cenas. A minha página ficou assim depois de acertar todos esses pontos:

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O resultado final, com adição de efeitos especiais, é esse:

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Por fim, para saber se os valores (luz e sombra) da sua imagem estão agradáveis e funcionais, dando o destaque correto para a situação apresentada no desenho, crie uma camada limpa e pinte de preto. Passe essa camada para o topo da área das layers e mude o seu modo para “color”.

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Com sua imagem em preto e branco você terá maior liberdade para analisar se os tons, claro e escuro, estão funcionando como deveria. Se for preciso, use o Hue/Saturation para definir melhor a intensidade de luz e sombra das cores da página.

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Esse é o meu processo para pintar uma página de quadrinhos. Espero que o meu Guia básico: colorindo uma página de história em quadrinhos tenha servido para alguma coisa. Ainda estou apreendendo e certamente não tenho as capacitações necessárias para ensinar outras pessoas, mas estava com vontade de escrever e assim o fiz.

Antes de mais nada, essas são as cores oficias do quadrinho:

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 Para ver o meu portfólio acesse esse link ou clique nos links de redes sociais na barra lateral do blog. Se não percebeu ainda, o meu nome é Dulcelino Neto e também sou escritor. Os meus contos estão à venda na Amazon e você também pode adquirir uma história em quadrinhos de minha autoria, publicada pela Editora Draco na antologia Dracomics Shonen Vol. 1, nessas lojas.

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