quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Guia básico: formatação de roteiro para histórias em quadrinhos!

Acabei me deparando com um problema comum quando decidi escrever profissionalmente o meu primeiro roteiro de histórias em quadrinhos: não saber como fazer uma estrutura para esse tipo de texto! Eu já havia trabalhado com contos e histórias longas, mas nunca tinha feito um roteiro para HQ, o que pode ser um ponto desmotivador se você não souber por onde começar.

Refletindo sobre isso, resolvi criar esse guia básico sobre formatação de roteiro para histórias em quadrinhos! O texto compila, de maneira simplória, tudo ao qual eu gostaria de saber na época em que escrevi meu primeiro roteiro. O objetivo é auxiliar novos autores, principalmente aqueles que não sabem desenhar, de maneira prática e sem muitas delongas. Lembrando que a ideia não é ensinar a contar uma história, mas, sim, formatar um roteiro.

Por onde começar?


O primeiro roteiro que escrevi foi por causa da Editora Draco. Para quem não sabe, a Draco faz frequentemente seleções para antologias de livros e histórias em quadrinhos. Nesse teste de seleção é solicitado, junto ao roteiro, uma sinopse e um resumo completo da história. Passei a utilizar esse método desde então. É nesse ponto que você deve começar sua história.

Dracomics Shonen, Editora Draco.
Você teve uma ideia interessante para um quadrinho? Então comece escrevendo uma sinopse. Essas três ou cinco linhas de texto vão lhe ajudar a encontrar o foco do seu enredo, permitindo a melhor organização das suas ideias durante o desenvolvimento da trama.

Depois disso você escreve o resumo do seu roteiro. Não é para fazer uma dissertação sobre o assunto, uma página já está de bom tamanho para destrinchar os acontecimentos da sua história de vinte páginas (para mais ou para menos). O resumo não necessita de diálogos ou da descrição de como os acontecimentos serão contados no quadrinho, sua única função é estabelecer o ponto A, B e C da trama – início, meio e fim. Só seja mais específico se for realmente necessário.

Você pode escrever resumos mais longos se sua história for longa, dividir por partes e esse tipo de coisa, mas como esse é o “guia básico”, comece com menos páginas, não precisa se exceder querendo comer mais do que sua boca. Descreva tudo que vai acontecer na história no resumo como se fosse o argumento de um filme. A partir disso você estará mais apto para fazer seu roteiro.

Dica: eu geralmente faço um storyline antes de começar a escrever o roteiro. Essa linha guia temporal me auxilia a organizar melhor os acontecimentos nas páginas, separando algumas falas já planejadas e pedaços específicos do enredo. Veja o exemplo a seguir:

Página 1: Fulana chega na cidade e entra em uma loja de doces.

Página 2: Fulana é abordada por um vendedor. Ela pergunta se tem um bolinho específico e o funcionário diz que vai verificar ao se abaixar atrás do balcão.

Página 3: O funcionário levanta de supetão armado com uma espingarda. Fulana se esconde por de trás de uma prateleira.

E assim sucessivamente.

O formato ideal para um roteiro de história em quadrinhos


A formatação de um roteiro de história em quadrinhos pode ser feita de diversas maneiras diferentes, algumas com uma padronização mais solta e outras mais elaboradas. Como já foi explicado, esse texto é para iniciantes, portanto, nesse caso, vou explicar o formato básico ao qual utilizo; funcional e prático.

Esse é o formato padrão de um roteiro de histórias em quadrinhos:

- Página 1
QUADRO 1
Descrição da cena que deve ser desenhada no quadro.
PERSONAGEM – Balão 1
Fala do personagem.
QUADRO 2
Descrição da cena que deve ser desenhada no quadro:
PERSONAGEM – Balão 1
Fala do personagem.
PERSONAGEM 2 – Balão 2
Fala do personagem.

Dependendo da sua situação, a formatação de um roteiro pode ser complicada, mas o processo é bem simples quando você pega o ritmo de editar o seu texto dessa forma. O nome e número das páginas, que podem ser abreviados para PG1, sempre devem figurar em negrito para seu desenhista, editor e até mesmo você não se perder no texto (opção estética que faço uso). O quadro fica em caixa alta e o nome dos personagens, representando o balão de fala do quadro em questão, também fica em caixa alta pelo mesmo motivo da numeração da página em negrito.

Esse processo deve ser realizado em todo o roteiro. Quando for escrever a segunda página, destaque o número em negrito e comece a contar os quadros novamente; QUADRO 1, QUADRO 2 e etc. A contagem dos quadros recomeça em cada nova página da mesma maneira que a contagem dos balões recomeça em cada novo quadro.

Destrinchando alguns pontos específicos dentro da formatação de um roteiro:

• Ordem das páginas: o seu texto será transformado em um desenho para revista, portanto, você deve ter exata noção da ordem das páginas no projeto gráfico para saber se seu roteiro se encaixa corretamente. Normalmente a história começa em uma página ímpar (a direita da visão do leitor) e terminam em uma página par (a esquerda da visão do leitor). A numeração das páginas do roteiro não serão necessariamente as mesmas da revista impressa, o importante é saber se organizar para controlar o ritmo de leitura e, por exemplo, não quebrar uma página dupla. Faça uma tabela no Word, imitando o formato da revista, para se organizar e evitar dúvidas.


Página 1
Página 2
Página 3
Página 4
Página 5
Página 6
Página 7

• Página de quadro único: às vezes você quer que um único desenho ocupe uma página inteira. Para fazer isso é só seguir o processo explicado anteriormente, escreva QUADRO 1 e descreva sua cena. Coloque diálogos, se necessário, e passe para a próxima página;

• Página dupla: para página dupla, o momento de grande destaque e impacto de um quadrinho, você vai simplesmente escrever “- Página 4/5” e seguir o padrão dos quadros e balões já explicados;

• Descrição do quadro: a descrição do quadro deve levar em consideração o leitor e o ilustrador. Você tem que pensar que a cena será lida em desenho pelo seu leitor, portanto, é fundamental que ela seja parte essencial da história, não havendo espaço para firulas literárias como ocorre em um livro. Nesse sentido, não esqueça de descrever bem a imagem que você deseja para o ilustrador, mas não seja autoritário, deixe que o quadrinista se sinta bem informado e confortável para fazer seu próprio trabalho criativo;

• Descrição do quadro com especificações: quando o roteirista almeja algo específico para uma cena é sua função ser claro para poder descrever a situação, expressão ou objeto da melhor maneira possível. Assumindo o clichê de que uma imagem vale mais que mil palavras, é possível mandar para o ilustrador um exemplo desenhado por você ou até mesmo um link que justifica aquilo descrito no roteiro. “Nessa cena a Fulana está segurando uma arma apontada para o leitor em uma angulação de baixo para cima (Contra-Plongée); estilo essa imagem de Black Lagoon. Porém, não se esqueça, a descrição deve transmitir o que o ilustrador precisa saber, a referência é apenas um acréscimo charmoso para seu entendimento.

• Fala dos personagens: as falas dos personagens precisam ser sucintas e diretas; jamais confunda o diálogo de quadrinhos com livro ou cinema, pois o diálogo do gibi é dependente do tamanho do quadro disponível. Se o texto for longo ele vai cobrir a arte e deixará a leitura muito arrastada. Por isso é importante dividir os balões e aprender a falar muito com poucas palavras.

• Onomatopeias: as onomatopeias ficam por conta do seu ilustrador, pois fazem parte direta da composição artística do desenho. No entanto, se você pensou em algo em específico, coloque a onomatopeia na descrição do quadro e explique a utilidade da mesma para seu desenhista. Se a onomatopeia for uma fala, é só seguir o de costume como se fosse um diálogo normal do seu personagem.

• Os tipos de balões: dentro de um roteiro a formatação dos balões contam com o maior número de especificações técnicas. Nesse caso, resolvi separar alguns parágrafos para poder explicar direitinho como esses termos são aplicados dentro de um roteiro.

- O RECORDATÓRIO era utilizado como uma caixa de texto que explicava o que havia ocorrido na edição anterior da revista, mas também pode ser usado como um recurso narrativo de “passagem de tempo” e “placa de informação” – “Dois meses depois” e “Alemanha, 1944”, respectivamente. O RECORDATÓRIO tem que ficar no mesmo espaço dos diálogos, mas ao invés de colocar o nome do personagem e sua fala, você escreve RECORDATÓRIO e redige o que deve ser colocado dentro do balão.

- Se o diálogo ficou longo e você quer dividir o texto em dois balões para não deixar a fala cansativa, porém, o texto em questão faz parte da mesma frase, você só precisa escrever “continuação direta” entre parênteses após o balão.

FULANA - Balão 1

Você é extremamente inconveniente! Fica falando dessa tal de Juliana, Melissa, Barbara e até da Vanessa. Mas quer saber de uma coisa? Eu não tenho problema com suas ex-namoradas!

FULANA – Balão 2 (continuação direta)

Mas é engraçado que...

- No caso do personagem ausente, ou seja, o seu personagem está falando, mas ele não aparece em cena, só é preciso colocar “OFF” entre parênteses depois do nome do balão. É só fazer igual a continuação direta.

- Para o clássico balão de pensamento, eu sugiro seguir normalmente com o texto e, depois do nome do balão, colocar “Nuvem/Balão de Pensamento” entre parênteses.

FULANA - Balão 1

Eu tenho certeza que o certo é o fio vermelho.

FULANA – Balão 2 (Nuvem de Pensamento)

Não explode, pelo amor de Deus!

Bônus Track: O Arquipélago dos Espíritos.


Como já deixei claro, o meu primeiro roteiro foi publicado pela Editora Draco, porém, até agora não falei sobre ele. A história em questão se chama O Arquipélago dos Espíritos e está disponível no primeiro volume da antologia estilo mangá da editora, a Dracomics Shonen.

Melhor do que simplesmente mostrar detalhes técnicos da criação de um roteiro, acho importante também exemplificar na prática esse processo. Por isso resolvi separar o começo da minha história para vocês lerem; sinopse, resumo, primeira página no roteiro escrita e desenhada. Esse é o último exemplo, uma história finalizada que foi editada e publicada em material impresso. Confira:

O Arquipélago dos Espíritos

História: Dulcelino Neto

Sinopse:

No meio do oceano existe um conjunto de ilhas chamado O Arquipélago dos Espíritos. As ilhas, em especial a gigante central, são assombradas por fantasmas provindos de todos os cantos do mundo. Durante uma madrugada nublada o jovem Chu’a chega em uma das pequenas ilhas sobressalentes para assumir o posto de investigador sobrenatural ao lado de Bianca Fulmine, veterana de incursão e sua mais nova parceira. A primeira missão da dupla é resolver a aparição de um espírito animal raivoso que assombrou a residência de um casal de idosos.

Resumo (parte do primeiro e segundo parágrafo):

O Arquipélago dos Espíritos é um conjunto de ilhas assombradas por fantasmas provindos de todos os lados do mundo. As pessoas não sabem o motivo da concentração de espíritos na região, a única certeza é que as assombrações tomaram conta do lugar a muito tempo [...]

Chu’a é um jovem detentor de poderes sobrenaturais [...]. O rapaz chega em uma das ilhas do arquipélago após ter passado no processo de seleção responsável por contratar pessoas hábeis para assumir algum posto na comitiva responsável pela incursão exorcista no Arquipélago dos Espíritos [...]

Roteiro:

- Página 1

QUADRO 1

Imagem única. Ponta de um barco em perspectiva se aproximando do cais de uma ilha. A visão do leitor deve ser provinda de dentro do barco - o barco é pesqueiro; composto por casco, cabine e alguns mastros, mas a motor, sem velas. É um típico barco de pesca de mar que o Chu’a pegou carona para chegar até a ilha. O cais pertence a uma ilha menor do arquipélago, mas como ela está um pouco afastada nós não conseguimos ver o cume da grande ilha central. A visão do cais é um pouco borrada devido a neblina marítima.

RECORDATÓRIO – Balão 1

Ilha de Ferro, Arquipélago dos Espíritos.

Processo de criação da primeira página (arte de Heitor Amatsu).
O rascunho foi a primeira imagem que o Heitor Amatsu me enviou. Concordei com o seu desenho e ele finalizou. Reparem que a última página, aprovada pelos editores, não tem película, mas sim o uso direto de escala de cinza. Não tive participação nessa escolha estética, mas gostei bastante do resultado final, pois ficou mais natural do que a série de pontinhos da película.

Bianca Fulmine - Arte Conceitual por Heitor Amatsu.
Nessa outra imagem vocês conferem o processo de criação da Bianca, a protagonista feminina de O Arquipélago dos Espíritos. Na primeira versão do roteiro eu a descrevi com uma espécie de agente federal, FBI. Por isso que o Heitor a desenhou com esse terninho de escritório. No entanto, como estamos falando de uma comitiva em uma ilha, seria mais lógico que fossem militares, por isso ela assumiu o segundo visual, com roupas similares a de um soldado da marinha.
NUDES!

Para finalizar o processo de criação da personagem, solicitei para o Heitor remover sua saia e sapatos sociais. Depois disso enviei um manual em PDF do regulamento de uniformes da Marinha Brasileira. O design final é baseado em um dos uniformes padrões da marinha nacional, especificamente na roupa azul dos oficiais, mistura do feminino com o masculino. A imagem ao lado é a versão colorida desse mesmo uniforme (cores minhas, arte do Heitor).

Se você quer ver mais detalhes sobre todo o processo de criação de O Arquipélago dos Espíritos, acesse essa outra postagem. Nesse texto eu explico com detalhes, sem spoilers, todos os passos de criação do meu roteiro até a publicação impressa do quadrinho. Para ler o quadrinho você pode acessar um link de compra no site da Editora Draco (encaminha para outras lojas) ou ler na Social Comics.

Só com isso você será capaz de ganhar um Agostini ou HQMix? Provavelmente não, mas eu comecei com menos material para estudo e mesmo assim tive meu primeiro roteiro publicado por uma editora. Espero, mesmo que com pouco, ter ajudado.

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